Skip to content

Conselheiros debatem pesquisa que aponta visão dos jovens de baixa renda sobre o ensino médio

outubro 30, 2013

Na última quarta-feira, 23/10, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo (CEE-SP) realizou uma sessão extraordinária para debater a pesquisa “O que pensam os jovens de baixa renda sobre a escola”, desenvolvida pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), com apoio da Fundação Victor Civita.

A sessão contou com a presença de Haroldo Torres, diretor-adjunto de análise e disseminação da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) e coordenador da pesquisa. A equipe trabalhou com seis grupos focais em São Paulo e em Recife, através de uma metodologia qualitativa e quantitativa, e envolveu jovens de 15 a 19 anos.

Realizada em 2012, o levantamento foi feito fora da escola, para “tirar o peso do ambiente escolar”, afirmou Haroldo. Dessa forma, três perguntas nortearam a pesquisa: qual era o perfil do jovem pobre que está chegando no ensino médio; quais eram as percepções que eles têm do ensino médio; e como essas percepções influenciam ou não sua trajetória educacional.

Os jovens entrevistados, em sua maioria, completaram o ensino infantil (76,7%), têm equipamentos básicos em casa (84,9% têm mesa apara estudar) e oferta de internet no domicílio (70,7%). Além disso, muitos estão conectados através de smartphones (57,6%). No entanto, Haroldo fez um alerta sobre as trajetórias individuais. “Estamos falando de experiências escolares muito diversificadas”. Ele também trouxe um dado importante: o número de jovens evangélicos cursando ensino médio, principalmente no Recife, aumentou.

Haroldo destacou a situação de jovens que entraram no ensino médio com defasagem idade/série. A taxa de frequência líquida (jovens de cada faixa etária na etapa de ensino adequada) é 51,6%. “Esse público-alvo tem uma enorme relevância do ponto de vista da política educacional, porque é o mais vulnerável, os que estão entrando agora no ensino médio. Os pais desses jovens normalmente não têm ensino médio”, afirmou.

Ao longo do desenvolvimento, os pesquisadores encontraram uma série de questões específicas, como a alta proporção de ensino noturno, a falta de estímulo dos professores, o equipamento e as estruturas deterioradas e o tema da violência.

Trabalho, ensino noturno e experiência escolar

A pesquisa mostrou que o trabalho precoce é muito valorizado. Uma alta proporção dos jovens declararam que a idade ideal para começar a trabalhar é, em média, aos 17 anos, embora os pais prefiram que os filhos concluam o ensino médio antes. Os trabalhos normalmente são precários, sem carteira assinada e com níveis de remuneração baixos. O pesquisador disse que apenas um terço da renda produzida pelo jovem vai para a família, enquanto a grande parte é para consumo próprio. “Esse desejo de trabalhar é até uma condição de poder pertencer à juventude. Poder comprar um tênis ou ir numa balada”.

O conselheiro Jair Ribeiro da Silva questionou a necessidade de trabalho por parte dos jovens. Para ele, se há o oferecimento de uma escola de qualidade, muitos jovens vão preferir frequentá-la a trabalhar. “Tem que se estruturar uma forma de bolsa, fazer um processo de convencimento dos alunos”.

A conselheira Maria Helena Guimarães chamou atenção para a questão do ensino médio noturno. Mesmo decrescente em participação, a porcentagem ainda é alta. Segundo a conselheira, 40% dos alunos de ensino médio em São Paulo frequentam a escola no período noturno e parte considerável desses alunos não trabalha. “Ele está indo para o noturno porque não tem oferta no diurno, principalmente nas periferias urbanas. Esse tema é muito importante para a discussão de ensino médio brasileiro e está na pauta da reforma”.

Ainda segundo a conselheira, em 2014, o Brasil terá mais alunos na educação superior do que de ensino médio. “Não temos ainda a universalização do acesso e a faixa de conclusão do ensino médio no Brasil está estagnada há sete anos”.

Para Haroldo, colocar um jovem de 15 anos no ensino noturno sob o argumento de que ele quer trabalhar não faz sentido do ponto de vista da legislação, já que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), esses jovens não devem trabalhar. “Talvez fosse possível regular essa questão propondo que aos 15 anos o jovem não estivesse no ensino noturno. Seria uma possibilidade importante, interessante”.

O que pensam sobre a escola

Outro dado que a pesquisa procurou levantar foi como a escola é vista por esses alunos. As respostas abordaram a desorganização e a insegurança, que pode ir desde brincadeiras dentro da sala de aula à decorrência de conflitos de fato. O pesquisador apontou que a questão da insegurança aparece principalmente em São Paulo e que está mais relacionada às escolas noturnas. “Na experiência desses jovens, o sistema escolar não está conseguindo entregar algumas coisas que são muito básicas, como uma escola bem conservada e uma sensação de segurança”.

Sobre os professores, os alunos entrevistados relataram que eles se preocupam, mas que os indicadores de presença de educadores em classe é problemático. “Em São Paulo, 49% dos jovens disseram que é muito comum os professores estarem ausentes”, afirmou Haroldo.

A utilidade das disciplinas e do conteúdo escolar também foi abordada. Os resultados mostraram que muitos jovens não entendem o motivo de estudar determinados conteúdos e que existe uma percepção utilitarista  do ensino, para se conseguir um diploma.

Para Haroldo, ainda parecem existir barreiras importantes para esses jovens, pois eles têm baixa expectativa em relação à escola, que ainda assim não são atendidas. De acordo com o pesquisador, essas percepções influenciam o abandono. “Isso significa que devemos ter um modelo único? Ou devemos oferecer diversidade para jovens que na prática têm experiências diversas?”

Abandono, repetência e tecnologias

Percebeu-se também uma enorme descontinuidade dos jovens aos 18 anos de idade. Isso significa um alto índice de saída do ambiente escolar, em parte porque os jovens se formam no ensino médio, mas também porque há um abandono da escola. Haroldo apontou que essa idade gera uma série de impactos nas experiências dos jovens. “A questão de um jovem de 18 anos estar cursando a 1ª série do ensino médio é um problema sério do ponto de vista da possibilidade dele continuar a estudar”.

Para Haroldo, existem outros aspectos relacionados à experiência escolar, além da reprovação, que influenciam o jovem a abandonar o ensino médio. O levantamento mostrou que a frequência dos professores e a utilidade dos conteúdos são alguns dos motivos. A presença das novas tecnologias na vida desses jovens também foi parte do debate. “Esses jovens estão conectados, mas a escola não está conectada”, afirmou.

O conselheiro Marcos Monteiro levantou a questão das diferenças de linguagem. “O mau professor fala uma língua diferente da linguagem que esse pessoal usa”. Haroldo acha que esse é um tema crucial: a dificuldade da comunicação. “Estamos falando de um aluno que vem de uma cultura popular, com uma estrutura discursiva completamente diferente da estrutura da escola.”

Reforma do ensino médio

A conselheira Maria Helena Guimarães participou como representante do CEE em uma audiência pública sobre a reforma do ensino médio brasileiro na Câmara dos Deputados, em Brasília, no dia 22/10. De acordo com Maria Helena, há um consenso entre deputados, secretários estaduais de educação e alunos, que são favoráveis à ideia da reforma, diversificação e flexibilização do ensino médio. No entanto, afirma a conselheira, as associações docentes estariam mais reticentes quanto ao tema, argumentando que o ensino médio deve ser único e igual para todos, na tentativa de garantir a formação geral do cidadão.

A conselheira Bernardete Gatti opinou que os alunos acham o ensino médio monótono não apenas pelo currículo, mas também pela própria falta de estrutura das escolas, laboratórios atraentes, dentre outros motivos que vão além do currículo.

Maria Helena refletiu sobre as soluções que são possíveis de pensar e debater para que se tenha uma política pública de fato no tema. “[O ensino médio] foi reformado, reformado e reformado e nada aconteceu na sala de aula”.

Os conselheiros receberam uma análise da Fundação SEADE chamada “Os jovens e os gargalos do ensino médio brasileiro”, realizada a partir das Pesquisas Nacionais por Amostras de Domicílios (PNAD), de 1999 a 2011, mostrando “a situação extremamente dramática dos jovens brasileiros na faixa etária especialmente de 18 a 24 anos”, disse Maria Helena.

Para ler o relatório final da pesquisa “O que pensam os jovens de baixa renda sobre a escola”, acesse aqui.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: